2.d.2. O cérebro e os computadores modernos

Esta característica é facilmente observável tanto na inteligência como na memória. A primeira apoia-se na segunda para não repetir desnecessariamente várias operações, chegando inclusivamente à formação do que podemos denominar subprogramas de atuação automática, como as respostas pré-definidas a diferentes situações quando se está a conduzir.

Poderíamos pensar que quase metade da memória se dedica a guardar informação de relações de apoio direto à inteligência, independentemente de que a própria informação das percepções se encontre armazenada de acordo com um sistema múltiplo de referências.

Da mesma forma, a memória ou melhor dito o gestor da memória, tentará guardar só a informação que considere relevante, que não exista já guardada juntamente com uma informação semelhante de forma a que unicamente acrescente uma nova matização à existente. Mais à frente voltaremos a este tema ao falar dos tipos de memória.

 
 

2.d.3. Processos cognitivos

É possível que o pensamento consciente não seja o único, ou seja, que não todo ele esteja a seguir a mesma linha de argumentação, pode haver dois ou mais simultaneamente; mais ainda, eu diria que quase sempre há dois pelo menos. Seria como a existência de um pensamento não totalmente inconsciente ainda que em segundo plano.

Este fato não se deve confundir com as situações em que estamos a pensar em duas coisas ao mesmo tempo, neste caso, as duas coisas encontram-se em primeiro plano no pensamento.

Por um lado, estar-se-iam a aproveitar as capacidades cognitivas, incluindo os recursos ociosos, do sistema e, por outro lado, sempre teremos uma ideia na cabeça quando decidimos deixar de pensar em alguma coisa e conseguimos o nosso objetivo com um raciocínio.

Quando a mente fica em branco, pode dever-se a que se acabam os dois pensamentos simultâneos ao mesmo tempo, ainda que normalmente eu acho que é por ter tentado voltar atrás na sequência do pensamento e nem sempre é fácil ou possível.

Que os computadores já fazem coisas parecidas e que cada vez se vão complicando mais neste aspecto não necessita de maiores explicações.

 

2.d.4. Manutenção da capacidade intelectual

Dada a complexidade do sistema intelectual do nosso cérebro e a necessidade de manter uma operabilidade ótima em relação aos horizontes temporais da informação, o sistema necessita de se reestruturar diariamente. Esta função de limpeza realiza-se principalmente durante o tempo em que estamos a dormir.

Los Angeles - Skyline (Imagem de domínio público)
Los Angeles - Skyline

Talvez a razão fundamental pela qual necessitamos de dormir seja porque a memória de trabalho e a capacidade relacional estão libertas de várias tarefas e que, para um aproveitamento da experiência diária e da sua análise para a sua possível memorização necessitam-se as duas capacidades citadas com uma grande potência disponível.

Os sonhos, em grande medida, representam o trabalho que leva a cabo o gestor da memória na hora de arquivar certos dados. Quando não sabe muito bem o que fazer, por carecer de informação suficiente, recria uma situação e tenta forçar a inteligência a decidir-se, esta decisão afetará a forma de memorizar a informação. Desta forma conseguirá limpar a memória a curto prazo e não perder informação considerada importante ou ver-se obrigado a guardar provisoriamente toda a informação relativa ao tema concreto.

Em temas complexos, onde a inteligência oferece claramente uma decisão, o sonho pode ser recorrente. Seguramente o tema é importante e da solução adotada dependerá a gravação em lugares diferentes da memória de muita outra informação, ou afetará a configuração de uma das dimensões sobre a que assentam muitas referências.

O grau de dificuldade de alguns problemas relacionais pode ser tão grande que, em determinados momentos a solução mais rápida para um problema é esquecê-lo e tentar mais tarde, sobretudo depois de dormir. Qualquer programador experimentado sabe que, perante um problema elementar que parece irresolúvel, há sempre que comprovar a opção de apagar o computador e tentar de novo.

A explicação está em que no primeiro caso, depois de dormir limpou-se a memória a curto prazo e ao analisar o problema de novo carregar-se-á tudo o que está relacionado e de acordo com as prioridades ou importância de cada elemento, o que permitirá que a análise se simplifique consideravelmente.

No caso dos computadores, depois de apagá-lo e ligá-lo, todos os programas e variáveis em memória desapareceram e só se carregarão os programas e variáveis necessários, assegurando-nos ter memória livre e sem que nenhuma das variáveis possa ter valores errôneos que se pudessem ter gerado nas múltiplas provas que efetua um programador no desenvolvimento dos seus programas.

Outro exemplo, ainda que diferente, é o do olho humano. Este adapta-se melhor a mudanças bruscas na luminosidade abrindo e fechando as pálpebras que de nenhuma outra forma; ou seja, reiniciando o sistema. Isto é importante para aqueles que conduzem longos períodos de tempo durante a noite. A luz dos carros que circulam em sentido contrário e os que nos ultrapassam, provocam mudanças bruscas na luminosidade que cansam o olho.

No entanto, é muito curioso comprovar que, se perante cada mudança brusca de luminosidade, se piscam os olhos justamente no momento da mudança, a fadiga do olho e o incômodo que se sente reduzem-se uma terça parte ou menos. Isto quer dizer que existem mecanismos de ajustamento da luminosidade que estão otimizados para efetuar-se partindo da escuridão e que não cansam o olho, sendo, portanto, mais eficazes quando se dão as circunstâncias apropriadas.